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UM INENARRÁVEL ESPETÁCULO

Tive já a oportunidade, há umas semanas atrás, de salientar o terrível resultado dos julgamentos operados nas televisões, porque por essa via se acaba por criar estados de opinião no seio da nossa comunidade social. Estados de opinião que se vão acumulando até atingirem a má imagem de que hoje goza o nosso Sistema de Justiça. OPINIÃO DE HÉLIO B. LOPES





Neste caso do desaparecimento do jovem Rui Pedro, ocorrido há catorze anos, há todo um conjunto de dados que devem ser aqui referidos, de molde a que o leitor possa ajuizar sobre quanto se viu neste recente acórdão do Tribunal de Lousada.
Em primeiro lugar, há esse fantástico intervalo de tempo decorrido desde o dia do desaparecimento de Rui Pedro até à recente data em que se decidiu proceder à acusação contra esse nosso outro concidadão, Afonso Dias. Um tempo durante o qual, como pôde ver-se à saciedade, pouco ou nada de realmente inovador teve lugar.

Em segundo lugar, pelo que sempre foi referido pelos familiares de Rui Pedro, e que agora foi confirmado, nem o Ministério Público, nem a Polícia Judiciária, ao tempo, terão atuado da maneira mais adequada à realidade que lhes caiu nas mãos. Mau grado tal, a verdade é que, nestas situações continua a não se observar um qualquer pedido de justiça para o mau trabalho que parece ter sido duplamente realizado.
Em terceiro lugar, e a propósito deste julgamento de Afonso Dias, é conveniente recordar a certeiríssima previsão do Bastonário da Ordem dos Advogados, António Marinho Pinto, numa sua intervenção televisiva: tudo daria em nada, porque nos termos do que vinha de trás não existia nada para provar. Bom, para já, ganhou na sua previsão. Aliás, como quase sempre.

Em quarto lugar, não deixa de ser espantoso que Afonso Dias tenha vivido na sua terra – é o que tudo faz crer – sem um ínfimo de problemas, tendo mesmo casado e sido pai – foi o que consegui ouvir a alguém –, mantendo certamente muitas das suas amizades, criando mesmo outras, trabalhando como camionista de longo curso, por cá e pelo estrangeiro, e tudo isto naturalmente, sem um ínfimo de dificuldade em transitar livremente por todo o tecido social, para agora virmos a constatar que no dia em que um coletivo de três juízas o absolveu é que se levantaram mil e uma vozes lá por Lousada, dando morras ao arguido absolvido!

Em quinto lugar, convém ter presente que o coletivo de juízes que julgou este caso era constituído por três mulheres, talvez casadas, porventura mães, não se percebendo que motivação estranha as poderia nortear no sentido de, por unanimidade, se pronunciarem pela falta de provas suficientes para condenar Afonso Dias, se acaso a evidência fosse a erradamente apresentada por Ricardo Sá Fernandes. Porquê três juízas absolverem Afonso Dias, se as evidências fossem assim tão claras?! Não se percebe.

Em sexto lugar, todo este caso foi precedido, sobretudo desde que se deu início ao pleito, por autênticos julgamentos nos nossos canais televisivos, sempre, invariavelmente, dominados pela dor naturalíssima da família de Rui Pedro. Direta ou indiretamente, Afonso Dias foi sendo inculpado pela nossa grande comunicação social. A sua condenação no tecido social já tinha sido conseguida, pelos sucessivos tempos de antena concedidos, qual tribunal, às vítimas e ao seu defensor.

E, em sétimo lugar, a expectável consequência destes julgamentos televisivos: até o advogado de defesa de Afonso Dias se viu ameaçado, à saída do tribunal, tendo também de ser protegido pela força da GNR que estava presente.

Perante tudo quanto se pôde ontem ver pelas nossas televisões, e tendo em conta o que nos foi contado por Ricardo Sá Fernandes, eu peço ao meu caríssimo leitor este favor: deite-se a pensar um pouco, e veja se consegue encontrar explicações para o que possa ter tido lugar. Em minha opinião, existem várias explicações possíveis, admitindo eu, como caso limite, que Afonso Dias possa até ter uma opinião bem assertiva sobre o que poderá ter tido lugar. Mas, pergunto eu, ele poderia provar ali, no tribunal, a sua explicação? Bom, o mais provável é que o não possa fazer. E é por isso que eu penso que a sua estratégia de nunca falar foi a melhor. Culpado ou não, dissesse ele o que dissesse, e sempre as suas palavras, por um lado ou por outro, se voltariam contra si. Portanto, caro leitor, pense um pouco e veja se consegue encontrar explicações diversas para o que possa ter tido lugar. A minha opinião é de que é fácil encontrar várias explicações. E terá sido isto mesmo que as três juízas, unanimemente, perceberam. O número de graus de liberdade é, neste caso, muito grande.

Por fim, este dia de hoje, já com o leitor a ler este meu texto: dia 23 de Fevereiro de 2012. No momento em que escrevo este texto – véspera daquele dia –, eu desconheço por completo o que vai sair do Tribunal da Relação de Lisboa sobre o caso Casa Pia. Simplesmente, tendo lido o mais recente livro de Carlos Cruz e acompanhando as suas PROVAS DA VERDADE, bem como a recente opinião expendida por todos os elementos do Eixo do Mal e pelas palavras de Mário Soares, eu estou convicto de duas coisas: que Gertrudes Nunes não será condenada e que o julgamento de Carlos Cruz poderá ser anulado por certo erro técnico fundamental e muito exposto já ao nível público. Estou firmemente convicto de que estas duas coisas se saldarão deste modo. Portanto, caro leitor, esteja atento ao dia de hoje neste domínio.
Um dado é certo: o triste espectáculo que hoje pudemos ver, por via das televisões, a partir de Lousada e depois da absolvição de Afonso Dias, é a mais que natural consequência dos julgamentos serem também realizados nos canais televisivos. Uma realidade simplesmente degradante.