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O jazz apodera-se de Guimarães há 26 anos


11 concertos preenchem o cartaz de 2017 do festival, que se realiza de 08 a 18 de novembro no Centro Cultural Vila Flor


O jazz apodera-se de Guimarães.
É assim há 26 anos.


A partir desta quarta-feira, todos os amantes da música jazz rumam à cidade berço para assistir a mais uma edição do Guimarães Jazz que, este ano, será marcada pela celebração dos 100 anos decorridos desde a gravação do primeiro registo discográfico de jazz. Ao assinalar esta efeméride, o festival pretende questionar e problematizar a noção de património, tanto a um nível narrativo como musical, sugerindo assim uma nova organização da história. Eclético, aberto e transversal, em 2017, o Guimarães Jazz pretende afirmar-se como polo difusor de uma reflexão alargada sobre o futuro do jazz e, em sentido mais lato, das práticas musicais e artísticas do século XXI.

A 26ª edição do Guimarães Jazz tem início esta quarta-feira, às 21h30, com um concerto do guitarrista norte-americano Nels Cline, que interpretará o seu mais recente álbum “Lovers”, acompanhado pela Orquestra de Guimarães. Neste trabalho, Nels Cline debruça-se sobre um heterodoxo repertório, propondo ao ouvinte uma visão panorâmica sobre a sua cosmologia musical, ao mesmo tempo que sugere uma invulgar narrativa da história da música do século XX. Originalmente composto para uma formação alargada de vinte e três músicos, no Guimarães Jazz, porém, “Lovers” será interpretado por um quinteto, que incluirá o guitarrista português Eurico Costa, acompanhado pela Orquestra de Guimarães, com direção musical de Michael Leonhart.

O centenário da primeira edição discográfica de jazz será assinalado, explicitamente, na noite de quinta-feira, com o projeto Jazz – The Story, desenvolvido pela All Star Orchestra. Narrado pelo vocalista Nicolas Bearde, este espetáculo constitui uma comovente evocação do extraordinário legado artístico do jazz e uma eloquente revisitação do seu património musical, realizada por um conjunto de talentosos instrumentistas que se encontram em digressão pela Europa. Guimarães será um dos destinos dessa digressão, tendo sido o Guimarães Jazz um dos festivais escolhidos para apresentar esta dignificante síntese da história de uma das mais marcantes manifestações artísticas contemporânea – o jazz.

Na sexta-feira, é a vez do histórico baterista do free jazz Andrew Cyrille tocar ao vivo o álbum “The Declaration of Musical Independence”, um trabalho que constitui um exemplo da irredutível singularidade artística de um músico cuja vitalidade permanece intacta ao fim de mais de 50 anos de carreira. Considerado um dos grandes discos de jazz de 2016, “The Declaration of Musical Independence” foi gravado por uma formação de músicos notáveis na qual se inclui o pioneiro da eletrónica Richard Teitelbaum, o contrabaixista Ben Street e o guitarrista Bill Frisell (que, no entanto, será substituído por Ben Monder no Guimarães Jazz).

No primeiro sábado do festival, os concertos chegam em dose dupla. No concerto da tarde, às 18h30, o trio suíço VEIN apresenta-se no Guimarães Jazz acompanhado pelo versátil e prolífico saxofonista Rick Margitza. O tom impressionista que marca habitualmente a música dos VEIN é reconfigurado pela capacidade expressiva de Margitza, sendo legítimo esperar deste concerto uma música que à sofisticação do jazz de sensibilidade europeia do grupo suíço alia a pulsação do grande jazz da tradição norte-americana. À noite, os Mostly Other People Do the Killing tomam conta do palco do Grande Auditório do CCVF. Fundada em 2003 pelo contrabaixista e compositor Moppa Elliott, esta banda nova-iorquina tem vindo a afirmar-se progressivamente como um dos mais relevantes e desafiantes projetos de jazz do segundo milénio, o qual se apresentará em septeto pela primeira vez em Portugal. No Guimarães Jazz, os Mostly Other People Do the Killing irão apresentar o seu mais recente álbum, “Loafer’s Hollow”, editado em fevereiro deste ano.

No domingo, o Guimarães Jazz reserva novamente dois espetáculos. Às 17h00, Jeff Lederer e Mary LaRose dirigem a Big Band e o Ensemble de Cordas da ESMAE, reafirmando a importante vertente pedagógica do festival. Às 21h30, o Guimarães Jazz desloca-se até à Plataforma das Artes para apresentar a quarta edição da parceria com a associação Porta-Jazz. O dramaturgo Jorge Louraço Figueira e a atriz Catarina Lacerda, em colaboração com um quarteto liderado por Nuno Trocado (guitarra), com Tom Ward (saxofones, flauta, clarinete baixo), Sérgio Tavares (contrabaixo) e Acácio Salero (bateria), serão os protagonistas deste projeto que cruzará música e teatro num espetáculo que resulta de uma semana de trabalho em residência artística.

A segunda semana do Guimarães Jazz arranca no dia 16 de novembro, às 21h30, no Grande Auditório do CCVF, com o regresso do saxofonista norueguês Jan Garbarek, cujo concerto constituirá, sem dúvida, um dos pontos altos desta edição do festival. O quarteto com que Jan Garbarek se apresenta no Guimarães Jazz inclui alguns dos seus habituais colaboradores, nomeadamente o contrabaixista Yuri Daniel, o teclista Rainer Brüninghaus e o virtuoso percussionista indiano Trilok Gurtu.

No dia 17, o festival recebe Allison Miller. Baterista de grande sensibilidade melódica, Allison Miller é uma das mais proeminentes figuras da cena jazzística nova-iorquina da última década. A par de uma intensa atividade enquanto colaboradora de prestigiados músicos contemporâneos, Miller apresenta já um relevante currículo enquanto líder, sobretudo no contexto do grupo Boom Tic Boom, com o qual atuará no Guimarães Jazz. O álbum “Otis Was a Polar Bear” (2016) constituirá o foco principal de atenção deste concerto, onde Allison Miller se apresentará acompanhada de notáveis músicos.

O Guimarães Jazz termina a 18 de novembro com mais dois concertos. A atuação das 18h30 está a cargo do quarteto de Jeff Lederer / Joe Fiedler, com a participação especial de Mary LaRose, formação responsável pela condução das jam sessions e das oficinas de jazz. Às 21h30, o festival dá por concluída a sua 26ª edição com a estreia em Portugal de um dos mais inventivos e originais projetos de big band da atualidade: a Secret Society, um ensemble de dezoito músicos liderado por Darcy James Argue, um compositor jovem e idiossincrático, com uma singular visão musical e artística, que se tem afirmado como um dos valores emergentes do jazz contemporâneo. Intensamente imaginativas, as composições de “Real Enemies”, o seu trabalho mais recente, revelam-nos estarmos perante um compositor inquieto e vigilante, determinado a compor música comprometida com o presente da sociedade e da arte, e isso apenas bastaria para atestar a sua pertinência. No entanto, a superlativa qualidade das composições de Darcy James Argue elevam este seu projeto ao patamar da excelência artística, que o Guimarães Jazz terá o privilégio de testemunhar.

Como já é habitual, ao cartaz principal juntam-se uma série de atividades paralelas como as animações musicais que acontecem em vários pontos da cidade, as oficinas de jazz que irão decorrer no CCVF, de 13 e 17 de novembro, sob a orientação de Jeff Lederer, Joe Fiedler, Mary LaRose, Nick Dunston e George Schuller, músicos que também serão responsáveis pela realização das icónicas jam sessions que terão lugar, no final dos espetáculos, no Café Concerto do CCVF (de 09 a 11 de novembro) e no Convívio Associação Cultural (de 16 a 18 de novembro).

Os bilhetes para os concertos do Guimarães Jazz encontram-se à venda nas bilheteiras do Centro Cultural Vila Flor, da Plataforma das Artes e da Criatividade e da Casa da Memória de Guimarães, bem como nas lojas Fnac e El Corte Inglês, entre outros pontos de vendas, e na internet em www.ccvf.pt e oficina.bol.pt.