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Festival Internacional de Dança em Guimarães

De 01 a 10 de fevereiro, o GUIdance – Festival Internacional de Dança Contemporânea transporta até Guimarães a Europa da dança. 9 espetáculos, 4 estreias, masterclasses, sessões nas escolas, conversas e debates compõem o cartaz da sua 8ª edição.
Dois nomes incontornáveis da dança contemporânea, Wayne McGregor e Peeping Tom, abrem e encerram, respetivamente, o festival. Rui Horta – coreógrafo em destaque nesta edição – apresenta duas criações, uma em estreia absoluta e outra em reposição. Vera Mantero, Joana von Mayer Trindade & Hugo Calhim Cristóvão, Patricia Apergi, Euripides Laskaridis, Marlene Monteiro Freitas e Andreas Merk juntam-se ao movimento que agitará toda a cidade, aproximando público e artistas, seja em torno das criações apresentadas ou do universo (infinito) da dança.


No espetáculo inaugural da 8ª edição do GUIdance, a 01 de fevereiro, às 21h30, Wayne McGregor regressa a Guimarães e ao Centro Cultural Vila Flor com mais uma estreia em solo nacional. O visionário coreógrafo, que nunca cessa de explorar limites, decidiu mergulhar fundo na combinação do seu ADN para criar “Autobiography”, espetáculo em que parte de uma busca à mais notável tecnologia existente, o seu corpo, para lançar possibilidades que apontem à construção de futuros. Partindo do seu código genético enquanto arquivo de vivências, McGregor sequenciou o seu próprio genoma humano, convertendo-o em algoritmos que deram origem aos movimentos da peça, na qual reúne um corpo magnífico de bailarinos e volta a causar espanto pela cenografia e pelo espetacular jogo de luzes. Após a apresentação de “Atomos” em 2016, o multipremiado coreógrafo abre o GUIdance com aquela que tem sido considerada a sua obra mais íntima e ousada, fervorosamente aclamada pela imprensa internacional.


A partir daqui, o festival arranca para uma viagem tão completa e híbrida quanto desejável, comandada por todas as possibilidades que o jogo da criação nos permite. Assim acontece em “O Limpo e o Sujo”, no dia 02 de fevereiro à mesma hora, onde os corpos de Vera Mantero, Elizabete Francisca e Francisco Rolo dançam para desabafar, dançam para expelir, dançam para absorver. Expurgam, limpam e expulsam as contaminações do interior dos seus corpos. Há corpos educados e há corpos deseducados. Há, sobretudo, um alegre chafurdar na fusão entre estas duas espécies de corpos. “educados e deseducados” atravessados por informação acumulada procuram um novo lugar.


No mesmo sentido, Joana von Mayer Trindade & Hugo Calhim Cristóvão apresentam “Da insaciabilidade no caso ou ao mesmo tempo um milagre” às 18h30 do dia seguinte, partindo de Almada Negreiros e da sua velocidade em despertar cérebros no corpo. Simultaneidade, velocidade, incongruência com o exclusivo, assimilação e sobreposição conduzem ao maximalismo em associação com a eternidade rápida e urgente de Almada e unem com o gesto, mais que com a teoria, de atos dadaístas e surrealistas de hibridismo de linguagens e de espontaneidade. Uma coreografia focada no excesso, na sobreposição de padrões, na associação de elementos díspares, no sem sentido, não discursivo, não demonstrável. Na multíplice experiência do irrepetível.


A primeira semana desta edição fecha com a nova criação de Rui Horta, no dia 04 de fevereiro, às 21h30. “Humanário”, uma obra criada em conjunto com Tiago Simães, responsável pela direção musical do projeto, tem estreia absoluta no GUIdance e integra cerca de 40 intérpretes amadores, onde o traço de união é a capacidade vocal. “Humanário” reflete a importância da coesão da comunidade em diálogo com as idiossincrasias dos intérpretes. Uma obra sobre a diversidade, mas igualmente sobre a construção de um objeto comunitário. Reduzida à voz e ao corpo, a peça cria um traço de união, numa celebração da diferença de géneros, idades e culturas.


A segunda semana de espetáculos abre a 07 de fevereiro, no mesmo horário, com a “Vespa” de Rui Horta, peça que estreou no CCVF em abril do ano passado, aquando da celebração dos seus 60 anos de vida, e que agora é reposta no GUIdance. Um solo, interpretado pelo próprio. Uma peça sobre uma cabeça a explodir, sobre o que nem sequer falhámos porque nos coibimos de cumprir. Um espetáculo extremamente pessoal, em que teve de lidar consigo próprio através da solidão e do confinamento, testando os limites da mente e do corpo. Após 30 anos de ausência dos palcos, o coreógrafo e bailarino português – em destaque nesta edição – dança existência fora, projetando num plano infinito a ideia do eterno começo, criando futuros.


E nesse lugar imaginário vive a peça de Patricia Apergi, “Cementary”, espetáculo que esteve em residência artística no Centro de Criação de Candoso (Guimarães) e se apresenta agora em estreia nacional no palco do CCVF a 08 de fevereiro, também às 21h30, assinalando a segunda visita de Patricia Apergi à cidade berço e ao GUIdance, depois da presença no festival em 2015 com “Planites”. Neste espetáculo, a coreógrafa grega continua a indagar sobre um tópico central na sua obra, o labirinto urbano, focando-se agora na cidade como lugar de caos. Um lugar de abandono, onde vagueiam os sem-abrigo, onde edifícios que outrora tinham vida são largados à ruína, lugar que foi de encontro e efervescência, mas que no futuro será sinónimo de desolamento.


O “Jaguar”, de Marlene Monteiro Freitas com a colaboração de Andreas Merk, irrompe palco dentro na noite seguinte às 21h30. “Jaguar” é um cruzamento de inspirações que brotam muitas vezes sem controlo e que fazem da arte o que ela deve ser: uma força incontrolável, que não se fecha em rótulos ou denominações, mas que voa livre na cabeça de quem cria. E da cabeça passa para o corpo, que prolifera uma dança sem restrições. Marlene Monteiro Freitas é uma força da natureza e por isso esta criação não podia ter outro nome que não “Jaguar”, que explode natureza nos seus mais diversos e amplos sentidos.


Chegando ao último dia do festival, no dia 10, às 18h30, encontramos “Titans” de Euripides Laskaridis com todo o poder que o lugar da ficção nos reserva. Nesta peça, que chega ao GUIdance como um lembrete da frágil condição humana, evocando a importância de todos os fracassos, Euripides Laskaridis trabalha em estreita colaboração com o figurinista Angelos Mendis e cria um cenário apocalíptico para explorar a perseverança da humanidade diante do desconhecido. O desespero perante o fim da razão, um mundo desolador que evoca uma era em que os titãs governavam o universo. “Titans” traz à cena criaturas dos sítios mais recônditos da mente para refletirmos sobre quem somos, assinalando o quão frágil e enganador é o arquétipo da perfeição.


A viagem termina neste mesmo dia, às 21h30, com o regresso da companhia belga Peeping Tom que depois de “Moeder” (Mãe) – espetáculo apresentado no 12º aniversário do CCVF – nos traz, agora, “Vader” (Pai), a primeira parte desta trilogia em torno da família. “Vader” reflete sobre a decadência, o vazio, a indiferença e a fúria a que estamos sujeitos quando a vitalidade nos abandona, socorrendo-se, ainda assim, de algum humor. A ação passa-se num cenário que nos remete para um lar de idosos, muito semelhante a uma cave, um lugar onde somos muitas vezes deixados ao abandono. Um retrato de um lugar que nos remete para a solidão no fim da vida, obrigando a uma introspeção sobre um filme que já (quase) acabou. No final desta edição, regressamos, assim, àquilo que a dança em si (sempre) transporta: a relação entre o ser humano. Porque também isso carece de urgência na sua reinvenção.


As habituais e indispensáveis atividades paralelas juntam-se ao cartaz principal para aproximar público, artistas, escolas e pensadores, estreitando ligações e o saber inerente ao processo criativo, afirmando o GUIdance como um importante acontecimento artístico no calendário de inverno. Destas fazem parte as masterclasses com as companhias Wayne McGregor e Peeping Tom (dias 02 e 09, respetivamente), conversas pós-espetáculo com os artistas (dias 01, 03, 08 e 10), debates moderados pela jornalista Cláudia Galhós (dias 03 e 10), conferências para escolas protagonizadas pela mesma (dias 08 e 09) e sessões que levarão os artistas Joana von Mayer Trindade e Rui Horta às escolas do concelho de Guimarães (dias 01 e 06). O meeting point do festival, após os espetáculos, tem lugar marcado no Café Concerto do CCVF.


À semelhança dos anos anteriores, as apresentações do GUIdance desdobram-se entre o Centro Cultural Vila Flor (CCVF) e a Black Box do Centro Internacional das Artes José de Guimarães (CIAJG). Os bilhetes encontram-se à venda nas bilheteiras do CCVF, do CIAJG e da Casa da Memória de Guimarães, bem como nas Lojas Fnac e El Corte Inglés, e via online em www.ccvf.pt e oficina.bol.pt. O preço dos bilhetes varia entre os 10,00€ e os 3,50€ e há ainda a possibilidade de adquirir diferentes assinaturas para o festival. Os alunos que frequentam Escolas de Artes Performativas têm um preço especial de 4,00€ nos espetáculos. O programa completo do GUIdance pode ser consultado em www.ccvf.pt.