ANA SÁ


Na Sessão de 26 de outubro de 1943 da Câmara Municipal de Guimarães é atribuído o nome de Ana de Sá à rua que liga as Termas à Ponte Romana. A proposta foi apresentada pelo vereador de Vizela na CMG, José Ribeiro Moreira de Sá e Melo da seguinte forma:

“Encontrando-se sem nome a artéria que tem principio na rua Dr. Abílio Torres, da Vila de Vizela, segue pela margem direita do rio do mesmo nome e termina na Ponte Velha e é monumento nacional, tenho a honra de propor que lhe seja dado o nome de “D. Ana de Sá”, (Ana Amália Moreira de Sá) poetisa dos “Murmúrios de Vizela”. Dona Ana Amália Moreira de Sá, nome abreviado de Dona Ana Amália Borges Carneiro Barreto e Couto Moreira de Sá e Melo, nasceu na casa de Sá, sita na freguesia de Santa Eulália de Barrosas em 28 de outubro de 1823, e faleceu na mesma casa aos três de abril de 1899. Era Vimaranense ilustre, pois que á data do seu nascimento a freguesia de Santa Eulália fazia parte do concelho de Guimarães e a ele dedicou alguns dos seus melhores versos». 

 

 

Rua Ana de Sá inundada pela grande cheia de 1961

 RUA ANA DE SÁ 

É uma rua pequena, para uma alma grande e um talento enorme. É uma pequenina rua, mas prenhe de história e de histórias. Começa no entroncamento da Rua Latino Coelho (antiga Rua do Médico) e termina junto da Ponte Romana “que muitos chamam velha” como nos diz Camilo Castelo Branco, no seu “Novelas do Minho, em Gracejos que Matam”, publicado em 1875. É parte de um dos locais mais pitorescos de Vizela, não só pela demanda da sua vetusta e admirada Ponte Romana, seu único Monumento Nacional, desde 1910, que faz parte do caminho romano que de Bracara Augusta, passando por Tongobriga seguia até Mérida, a Eméritas Augusta do tempo dos romanos e que chegou a ser a capital da Lusitânia, mas também pelo deslizar cintilante do “nosso” Rio Vizela, que faz a delícia de muitos fotógrafos e pintores de hoje, como fez a delícia de muitos pintores, escritores e fotógrafos de outrora, que nuns vibrantes calotipos a preto e branco ou sépia de grão às polido vezes, mais áspero e rude outras, nos recordam como era (são) belos aqueles recantos, que nos encantam ainda, (não obstante tantos atentados) como encantaram Aurélio Paz dos Reis, Carlos Relvas, Frederick William Flower, Alfredo Bravo, Carlos Brandão, Sanches de Baena, Emilio Biel ou Salvador Villarinho Pereira, além de desenhadores como Nogueira da Silva, Rafael e Columbano Bordallo Pinheiro, João de Almeida ou pintores como Silva Porto e o, já nosso contemporâneo, Adalberto Fausto. Foi palco de amores perdidos e de desgraças amorosas, no dizer de Camilo Castelo Branco que aqui, nestas margens idílicas do Vizella, na já referida obra “Novelas do Minho – Gracejos que Matam, escreveu: “Era, pois, em 1851, aos 15 de Junho, nas Caldas de Vizela. 

Entre os salgueiros que enverdecem uma ilheta acima da ponte que hoje chamam «velha», à hora da sesta, emboscaram – se sete pessoas que preferiam aquele frescor ocre do arvoredo, golpeado por meandros do rio, ao cheiro sulfuroso e sulfídrico da «Lameira» ”. É uma rua pequenina, mas enorme na história que carrega e no orgulho da sua patrona. D. Ana de Sá, da Nobre Casa de Sá de Santa Eulália de Vizela, ilustre poetisa dos “Murmúrios do Vizella”, obra de referência para todos os poetas do século 19, publicada em 1861. 

Alguns dos seus biógrafos teimam em apontar para Outubro a data do seu nascimento e são vários os que o afirmam. Pra tirar dúvidas, fiz algumas pesquisas em diversos livros paroquiais e no seu Assento de Baptismo, assinado pelo coadjutor Joaquim José Dias, podemos ler: “Anna, filha legítima de Miguel António Moreira de Sá e de Dona Maria Bebiana carvalho de Oliveira, da Casa de Sá desta freguezia de santa Eulalia de Barrozas, Termo de Guimarães, Arcebispado de braga, Neta pella parte Paterna de Francisco Joaquim Moreira de Sá e de Dona Anna Peregrina Pinto de Carvalho desta freguezia e pella Materna do Conselheiro Fernando Jacinto Manuel de Oliveira e de Dona Joana Maria Angélica de Carvalho, do Rio de Janeiro. Nasceo no primeiro dia de Novembro do anno de mil oitocentos e vinte e três, foi solenemmente baptizada por João Baptista Pereira Capello, Vigário desta freguezia na sua Capella de Sá, paroquial, licença de sua Excelência Reverendíssima, aos nove dias do dito mês e anno e lhe empôz os santos óleos. Forão Padrinhos o Cónego Joaquim Moreira de Sá e Francisco Joaquim Moreira de Sá, por procuração de Dona Francisca Felismina Lusitana de Carvalho, do Rio de Janeiro e para constar fiz este assento. Era ut supra. 

O Coadjutor Joaquim José Dias” Numa altura em que se perfilavam em Portugal diversos movimentos em oposição ao neoclassicismo, que negava os princípios da harmonia, da ordem e da proporção, o romantismo acaba por prevalecer e são muitos os escritores e poetas que o abraçam, deixando–se seduzir pelas grandes modificações sociais, politicas e económicas, que despontam por toda a Europa. Ana de Sá não foge a essa tendência e o prefácio do seu “Murmúrios do Vizella” é por demais elucidativo: “Fascinada desde tenra edade me hei dado do coração à leitura dos Poetas. E quanto maior cópia de versos eu lia, maior era o prazer, que eu encontrava n’arte divina, para a qual me convidava também o exemplo poético de meus Maiores e Primos, e principalmente de meu sempre chorado Pai e de meu saudoso Avô Paterno. Casa em 26 de Setembro de 1851, como se pode ler no seu Registo de Casamento: “ Manuel António da Silva e Mello, filho legítimo de António Caetano da Silva e Mello e Dona Margarida Cândida dos Santos, moradores na Villa de Valença do Minho, na freguesia da Santa Maria dos Anjos e Dona Anna Amália Moreira de Sá, filha legítima de Miguel António Moreira de Sá e de Dona Maria Bebiana de Carvalho Oliveira, moradores que forão, na Casa de Sá desta freguesia de Santa Eulália de Barrozas, na forma do Sagrado Concilio Tridentino e Constituição deste Arcebispado, ambos se receberam hum com o outro (…) aos vinte e seis do mez de Setembro do prezente anno de mil, oitocentos e cincoenta e hum”. 

Troca correspondência com os maiores vultos das letras e com os nomes mais sonantes da poesia portuguesa da época e é por incentivo de Camilo Castelo Branco, que em três cartas manuscritas, a estimula a publicar os seus Murmúrios do Vizella. A propósito, é o próprio Camilo que afirma que pode orgulhar – se de ser: “autora aqui nesta terra, onde os autores femininos se ressentem de quase sempre da falha de princípios”. 

Faleceu Ana de Sá em 1899 e para a posteridade deixou-nos uma das mais belas obras de poesia do século 19, que não resisto em transcrever umas ou duas quadras: 

Da rola ao triste gemido/ 

Do rouxinol ao trinar/

Ao murmurar do meu rio/ 

Meus cantos vou misturar/ 

Casar ao som da corrente/ 

Da lira os sons que tirar. 

Tenho missão de poeta/ 

No mundo para cumprir/

 Triste vida sem ventura/

Sofrer, chorar e carpir/

Que ao poeta coube em sorte/

Somente saber sentir. 

E quero molhar a palma/

Que de génio se mostrou/

Aqui junto do Vizela/

No berço que m’embalou/

Murmurar quero a saudade/

Que no peito se arraigou. 

E a brisa/ que m’escuta/

Meus cantos aprenderá/

E o rio deslizando/

Estas vozes levará/

E no murmúrio saudoso/

Meus cantos murmurará. 

PS: Terminaria dizendo que tenho por esta rua, por razões sentimentais, um carinho muito especial!!! Opinião de Júlio César

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