Terramoto de 1755 foi sentido em Vizela?

Passam hoje 265 anos sobre o grande Terramoto de Lisboa, também conhecido por Terremoto de 1755, ocorrido no dia 1 de novembro de 1755 (estavam as igrejas cheias), resultando na destruição quase completa da cidade de Lisboa, especialmente na zona da Baixa, e atingindo ainda grande parte do litoral do Algarve e Setúbal. O sismo foi seguido de um maremoto - que se crê tenha atingido a altura de 20 metros - e de múltiplos incêndios, tendo feito certamente mais de 10 mil mortos (há quem aponte muitos mais). Foi um dos sismos mais mortíferos da história. Os sismólogos estimam que o sismo de 1755 atingiu magnitudes entre 8,7 a 9 na escala de Richter. Mas este brutal sismo terá sido sentido em Vizela? O nosso colaborador António Cunha investigou.

  Um pouco de História……. 
As memórias Paroquiais de 1758 são o resultado de um inquérito realizado a todas as paróquias de Portugal, 3 anos após o sismo de Lisboa de 1755, a mando de Marques de Pombal. 
O questionário foi enviado a todos os bispos das dioceses do reino, para que fossem respondidos pelos seus párocos e remetidas as respostas à Secretaria dos negócios do Reino. Uma das perguntas colocadas no inquérito era sobre os danos provocados pelo sismo de 01 de novembro de 1755. 
 As paróquias agora inseridas no concelho de Vizela também responderam a este inquérito. - A Paroquia de S. João das Caldas, nada diz sobre o sismo.
 - A Paroquia de S. Miguel das Caldas, nada diz sobre o sismo. - A Paroquia de Infias, respondeu dizendo não ter existido dano algum. 
 - A Paroquia de Sto. Adrião, respondeu dizendo que a terra tremeu, mas nada mais sucedeu. - A Paroquia de Stª Eulália, respondeu dizendo terem sentido enorme abalo, mas nada mais sucedeu. 
 - A Paroquia de Tagilde, respondeu dizendo não ter ocorrido ruína alguma. 
 - A Paroquia de S. Paio, nada diz sobre o sismo. Na escassez de informações sobre este assunto, procurei dados e descobri uma importantíssima correspondência datada de 12 de novembro de 1755, e publicada na Gazeta de Lisboa de 08 de janeiro de 1756, escrita 11 dias após o fatídico dia de 01 de novembro de 1755, e narrada por um fidalgo que se deslocava de Arrifana de Sousa (atual Penafiel) para a vila de Guimarães. 
Dá-nos valiosos pormenores sobre o que se passou no Vale do Vizela. Descreve danos na igreja de Stª Eulália, danos na igreja de Lustosa. 
A água do rio como das fontes ficou totalmente turva, mas o que mais me surpreendeu na descrição, foram os Geiseres que saiam das nascentes de água sulfurosa que existem no meio do rio a norte da ponte das Caldas. Identifica também danos na zona das caldas, que seria na atual Praça da República. 
 Transcrevi a totalidade a correspondência publicada na Gazeta de Lisboa, para uma melhor leitura. 
 “Guimaraens, 12 de novembro. Sahindo do termo de Arrifana de Sousa para esta Vila, húm Fidalgo dos bem conhecidos desta província, na manhã do primeiro do corrente, e havendo caminhado meya légua sentiu hum grande estrondo, que parecia alguma peça de artelharia disparada no Porto, que naturalmente se podia ouvir naquele sitio: mas aplicando mais o ouvido percebera, que o ruido era subterrâneo. 
Chegaram depois dois criados de pé com passo apressado, atónitos de haverem visto saltar a arca para o ar, e fugir-lhes a terra debaixo dos pés, ao mesmo tempo, que se ouvia húm horrendo trovam continuando depois a sua jornada encontrou hum homem, que vinha de S. Eulália da ordem, o qual lhe assegurou, que vira tremer aquella igreja, e levantarem-se as telhas que a cobriam, e que fugindo toda a gente, que nella estava para fora, cahira huma pedra da Sachristia, e todas as paredes das casas do campo; o que depois viu ser verdade o mesmo fidalgo. 
Meya légua mais avante se sentiu hum abalo, e pouco depois outro, mas o estrondo menos forte, observou-se, que as águas das fontes estavam turbas. Outras pessoas que encontrou lhe afirmaram, que na Igreja de lestoza se virara a Cruz do remate do frontispício para o norte com o terramoto, sendo de pedra, e de altura de oito palmos, e se levantaram as telhas do telhado, e que toda a gente fugira para fora. Viu depois na ponte das Caldas, que dita huma légua desta Villa, que o rio estava turbado, e que as suas aguas jugavam humas com outras, levantando espumas por cima das assenhas, e como no meyo delle para a parte do Norte da Ponte há um gorgolam de águas quente, sahiu a tiro de espingarda delle huma grossa porçam de fumo, que pouco a pouco se foi dissipando, com hum cheiro de enxofre e salute, tam activo, que fazia tapar os narizes ás pessoas, que oito horas depois atravessaram a Ponte, se não hé efeito da emoçam, que padeceram também as Caldas, que distam daquele sítio dous tiros de espingarda; porque ainda na terça feira estando o Abbade de Polvoreira na sua horta pelas dez horas da manhã setira nella hum cheiro sulphureo. 
Na Igreja de S. Lourenço, vezinha daquela fonte se voltou também a Cruz do Frontispício para a mesma parte do Norte, como em Lustoza. 
No Lugar de Friamunde cahiram com o terramoto umas cazas térreas. Nesta Vila tremeram com tanta força todas as igrejas, que a gente que nellas estava receiando, que os tectos, e as paredes fossem campas das suas sepulturas, buscaram apressadamente as ruas para seu refúgio. 
A dos Religiosos Capuchos padeceu mais que as outras, porque se lhe abriu a abobada, e o coro em seis partes, ameaçando huma pronta para ruína. 
Na de S. Francisco cahiu a bola de huma das pyramides que lhe servem de ornato. Arruinaram-se, e postraram-se por terra muitas paredes. 
Na bella casa do campo de Villa – Flor, que na vizinhança desta Vila edificou com igual cuidado, que despeza o senhor de Abadim, e Negrellos, huma das figuras, que ornam o magnífico Palácio, e representa Portugal, tendo doze palmos de alto, e estando colocada sobre a altura de 70, se voltou com a força do terramoto da parte do Norte para o Nascente, e o remate de huma pyramide de pedra da primeira fachada sahindo do seu lugar prodigiosamente nam cahiu em terra, e na fachada da parte da rua que vay para o Forte de S. António se alagou a abobeda de huma das janelas.
 Dizem algumas pessoas, que ao nascer do Sol, no mesmo dia do Sabbado, se viram no ar duas etipadas de fogo esgrimindo, o que podia ser ilusam de vista. 
Os abalos, ou tremores de terra continuaram aos dias seguintes, porem os últimos pouco percetíveis.

 ANTÓNIO CUNHA

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