Ponte da Cascalheira 164 anos de história


Texto e pesquisa de António Cunha.

A Ponte da Cascalheira (considerações finais).

Fará este ano de 2026, 164 anos.

1862 – Por iniciativa do industrial Faria Guimarães, dá-se início à construção de uma ponte provisória sobre o rio Vizela. Manda vir da sua fábrica de fundição do Bolhão, dois grandes ferros, esperando contar com a participação do município de Guimarães para a construção desta ponte tão necessária, como desejada pela população de Vizela, e que iria ligar a Lameira ao Banho do Mourisco. (Segundo o jornal “O Bracarense” de 1862, esta ponte seria já uma promessa antiga do Município de Guimarães). Esta ponte garantiu o acesso mais rápido e cómodo ao Banho do Mourisco, pelo menos até ao ano de 1871, altura em que foi inaugurada a ponte D. Luís I.

Pelas pesquisas que realizei, nomeadamente nos livros de vereação da Câmara Municipal de Guimarães, não vi qualquer referência a esta obra, o que leva a concluir que, quem suportou os custos desta ponte na sua totalidade, foi o Sr. Faria Guimarães e certamente mais alguns vizelenses que pretendiam o desenvolvimento da aldeia termal. Dois anos depois, no dia 30 de maio de 1864, o município de Guimarães decide realizar arranjos no banho do Mourisco. Seriam já uns arranjos significativos. Desde a substituição da telha, como o arranjo das portas e soalhos, dava para perceber o estado de degradação em que estes banhos se encontravam. 

Jornal “O Bracarense”, nº755 - sexta feira, 29 de agosto de 1862.

(…) Lembramos ainda outra vez à camara a intervenção na construção de uma ponte provizória no rio Vizella, afim de ligar a Lameira com o banho do Mourisco. Melhoramento este de reconhecida utilidade. O ilustre deputado pelo Porto, o snr. Faria Guimarães, já tomou a iniciativa, mandando vir da sua fábrica dous grande ferros. Desejamos que s. exc.ª leve avante o plano que incetou.”

Era frequente os Vizelenses tomarem a iniciativa de realizar melhoramentos que beneficiariam a terra, como aconteceu em 1859 com a possível construção de uma outra ponte sobre o rio Vizela, no lugar do Mourisco, como nos diz o Jornal “O Vimaranense” de 15 de setembro de 1859.

“NOTICIÁRIO – PUERI LUDUNT – Disse-nos, há tempos, um dos camaristas que hia proceder-se à feituria da Ponte do Mourisco, nas Caldas de Visella, para que já estavam resolvidas todas as dificuldades. 

Louvamos n´essa ocasião a camara, não pelo que fazia, mas sim pelo que deixava fazer, porque esta obra era quasi toda feita com donativos dos povos. Um d´estes dias foi o sr. Varella áquellas Caldas com o engenheiro da Câmara, mandou tirar a planta, cortar madeira para a obra etc. Quando todos esperavam que os respectivos trabalhos principiassem em breve, sabe-se já se não faz nada porque o snr. Visconde de Pindella assim o ordena apesar de ser o contrário d´aquillo em que todos tinam assentado! Isto tem graça!Mais uma vez, o pretendido dos Vizelenses não foi concretizado. Foi preciso aguardar pela iniciativa do Sr. Faria Guimarães em 1862.

Joaquim Ribeiro de Faria Guimarães Nasceu a 13 de janeiro de 1807 em Santa Eulália (Vizela), hoje uma freguesia do concelho de Vizela mas então integrada no concelho de Lousada com a denominação de Santa Eulália de Barrosas.

Casou com D. Germana Rosa da Silva, que havia sido casada em primeiras núpcias com João José da Costa Basto, falecido poucos anos após o casamento. D. Germana tinha dois filhos desse primeiro casamento (João José e António) que, na prática, foram criados por Faria Guimarães como filhos. Joaquim Faria Guimarães e Germana da Silva viriam a ter uma filha – Maria da Glória Ribeiro de Faria Guimarães.

Era tio-avô de Armindo de Freitas Ribeiro de Faria.

Mais conhecido como Faria Guimarães, foi um importante empresário, dirigente associativo e político oitocentista do Porto, Portugal.Foi fundador da célebre Fundição do Bolhão, da Fábrica de Lanifícios de Lordelo e da Tipografia Faria Guimarães.

Foi o primeiro Presidente da Direção da Associação Industrial Portuense, hoje chamada Associação Empresarial de Portugal. Foi igualmente fundador, membro da Direção e, mais tarde, Presidente da Associação Comercial do Porto.

Enquanto político, foi Vereador e Vice-Presidente da Câmara Municipal do Porto, bem como Deputado às Cortes.

Em 1864, defendeu no parlamento algo que revela bem as origens vizelenses deste ilustre industrial e político. A 2 de abril desse ano argumenta na Câmara de Deputados pelo restabelecimento dos pequenos concelhos, sempre que o mesmo fosse requerido pelas populações (livro de Fernando de Faria Bravo – Dr. Armindo de Freitas Ribeiro de Faria e a luta pelo concelho de Vizela).

Faleceu a 2 de abril de 1879, na sua casa na Rua de Fernandes Tomás, nº 358, na freguesia de Santo Ildefonso, na cidade do Porto.

A ponte provisória foi efetivamente construída em 1862. No entanto, não foi colocada no local onde a conhecemos nos nossos dias, mas um pouco mais a jusante, entre o antigo açude (atual ponte da Cascalheira) e o novo, construído em 1891.

1881 – Uma foto da autoria de J. Bastos, e datada do ano de 1881, é possível ver em segundo plano, o que parecem ser dois pilares da ponte provisória da Cascalheira.

Nesta data, a ponte D. Luís já se encontrava concluída e pleno funcionamento, e o acesso ao banho do Mourisco passou a ser feito pela estrada nova (atual rua do Mourisco), a alguns metros de distância dos banhos. A ponte provisória da cascalheira, fica em segundo plano, e só serviria para moradores locais e proprietários dos terrenos.1891- Nesta data, a companhia de banhos pediu a licença, no dia 17-01-1891, á Direção Regional do Ambiente e Recursos Naturais-Norte, para substituir o açude da “Cascalheira” por outro com a mesma altura no coroamento um pouco a jusante do existente e as obras marginais para uma turbina. “… pedindo concessão de licença para substituir o açude denominado da “Cascalheira” situado no rio Vizella, freguesia de S. Miguel e S. João das Caldas, concelho de Guimarães, por outro com a mesma altura no coroamento um pouco a jusante do existente, e bem assim para construir as obras marginaes necessárias para a instalação d´uma turbina…”(Processo nº 340 da pasta nº 16/1891 – Processos 95-A a 350).
Entretanto, em conversas e em troca de opiniões com o Jorge Miranda e com o Sr. Eng. Adelino Campante,

estes sustentam, com base em documentos e em relatos de proprietários herdeiros da Quinta da Cascalheira, que a Ponte da Cascalheira teria resultado de contrapartidas da Companhia dos Banhos aquando da construção do Parque das Termas. Em 1891, a companhia de banhos inicia a construção do novo, e atual açude do parque das termas, realizando ao mesmo tempo obras marginais com objetivo de colocação de uma turbina. A ponte provisória da Cascalheira é desmantelada, e recolocada no local onde a conhecemos nos nossos dias. Para isso, a companhia de banhos aproveitou as laterais do açude demolido (e que seria o açude principal da Real Fábrica de Papel da Cascalheira), para sustentação das barras de ferro e de toda a estrutura da ponte, ficando com uso exclusivo dos proprietários de ambas as margens.

1897 – Nesta data temos as primeiras referências às “Cancelas” em ferro, colocadas em ambas as extremidades da ponte, vedando definitivamente a passagem ao grande público, ficando de uso exclusivo aos proprietários dos terrenos adjacentes. Existem vários postais da cascalheira onde são visíveis estas cancelas.

Jornal “O Commercio de Guimarães” nº 1211 – de 01 de julho de 1897.

“Vizella, 25 de junho:

Os guarda civis, que foram requisitados para aqui manterem a ordem durante a epocha balnear, são chamados para o parque para ajudarem a sustentar os caprichos a esse individuo, que achando-se por todas as formas, e até mesmo politicamente ligado a um tal Mattos, proprietário da Cascalheira, segundo se diz influi no animo d’este para que mandasse construir um muro, vedando a passagem, à margem esquerda do rio, no sitio do Porto Cavalleiro, em frente do parque e um pouco abaixo da ponte da Cascalheira, qual o mesmo Mattos mandou fechar com duas cancellas de ferro, por sugestões daquella personalidade.”

O meu agradecimento a todos aqueles que, ao longo das décadas, contribuíram para a preservação e 

requalificação desta infraestrutura tão enraizada na memória coletiva dos vizelenses. A ponte da Cascalheira é, e sempre será um símbolo da resiliência de todos os vizelenses, que ao longo dos séculos lutaram pelo progresso e desenvolvimento da nossa terra. 

2009


António Cunha 

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